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Olhando os Trilhos
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30.3.04Arte e emoçãoHá alguns anos, na Bienal de São Paulo, foi exposto o quadro "O Grito" de Münch. Já havia visto este quadro em fotos e reproduções, mas mesmo assim, ao vê-lo ao vivo tive uma experiência muito diferente. Fiquei por vários minutos olhando para o quadro, impressionado com sua força. Naquela época eu vivia um momento feliz em minha vida e não conhecia a angústia retratada pelo quadro. Ainda assim fui tocado profundamente.
Não saberia dizer o que faz este quadro ser tão impressionante. Não entendo muito de história ou de crítica de arte, nem sei exatamente a que movimento Münch pertence. Ainda assim consigo ser tocado pelo seu quadro. Arte é feita para pessoas comuns. Faz bem pro ego ver o próprio nome no jornal, mas nenhum artista quer um público composto só de críticos. Conhecer a técnica, saber analisar uma obra de acordo com padrões estéticos bem definidos, saber reconhecer seu valor artístico objetivo é muito útil, mas não é imprescindível. Mesmo que eu nunca tivesse ouvido falar de Münch e aquele não fosse o quadro mais badalado daquela Bienal, mesmo que todos os críticos não fossem unânimes em julgar este quadro genial, eu ainda teria sentido a mesma emoção.
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Quando estudava musicoterapia, um professor nos apresentou à Música Eletroacústica, um movimento contemporâneo da música erudita. Após a apresentação de uma peça "a Nau" de Conrado Silva, comentei que a música havia me emocionado. Havia sentido melancolia ou expectativa em alguns trechos, entremeada por uma alegria indefinida, uma sensação de tranqüilidade e familiaridade. Um dos meus colegas me disse que não sabia como eu era capaz de sentir algo ouvindo uma música que era composta apenas de sons de ondas sobrepostos a sons eletrônicos sintetizados, sem melodia, sem ritmo definido. Ele afirmou que isso não era possível, que este tipo de música só se pode analisar racionalmente. Que ele havia achado a música interessante, mas não havia sentido nada. Não era possível sentir nada.
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Parece que vivemos em uma época em que ninguém mais pode sentir nada. Toda a arte deve ser discutida, interpretada, dissecada até suas entranhas. Qualquer análise não baseada em critérios objetivos não tem valor. Não concordo com isso. Gostar de uma obra é antes de tudo um reflexo das escolhas do indivíduo. Cada um gosta do que representa de alguma forma os valores que ele julga importantes. Sim, eu posso ler um livro, ver um filme ou ouvir uma música de que não gosto e ainda assim saber que esta obra tem valores inegáveis, que ela é original, que apresenta questionamentos importantes. Sou capaz de fazer uma análise baseada em valores objetivos, mas nada substitui o momento em que você se entrega à arte, joga fora o senso crítico e sente. Só sente. Nada substitui o impacto d'O Grito, que me fez gelar o sangue e o coração bater mais forte. E me fez ficar abismado em frente ao quadro até que um guarda me dissesse que minha vez havia acabado. O resto são palavras. 0 Comentários: |