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19.3.04

Coisas que eu não entendo

Seja por sincero respeito à minha imensa cultura inútil, seja por ironia com o fato de que eu sempre me meto na conversa alheia, dando opiniões não solicitadas, meus amigos e colegas do trabalho frequentemente começam uma conversa comigo assim: "Henrique, você que entende de tudo, pode me dizer...". Alguns me chamam de Carlos ou de Caique, mas o resto da frase é igual. Gostaria de acreditar que as pessoas realmente pensam que eu sei de tudo, mas sempre desconfiei que havia uma ironia nesta frase.
De fato, tenho uma certa dificuldade pra me controlar e não emitir opiniões sobre as conversas alheias. Sei que é meio mal educado ficar ouvindo o que os outros dizem e de repente invadir a conversa com uma resposta a uma pergunta que não foi feita a mim. Mas é irresistível. Lá estão duas pessoas falando do filme que eu vi ontem, do último atentado da Al Qaeda ou do novo astro do Sistema Solar e quando vejo já falei alguma coisa. O que é pior: às vezes até abandono meu real interlocutor, para quem eu deveria estar dando atenção integral, para poder invadir a conversa vizinha. Em resumo, eu sou aquilo que a maioria das pessoas chamaria de "Mala".
Ironicamente, as pessoas (talvez por serem mais bem educadas do que eu) não aparentam se importar e até pedem minha opinião às vezes. É claro que aquela frase lá de cima normalmente se completa com "...o que eu preciso fazer pra enviar a declaração de imposto de renda pela Internet?" ou "...onde fica a rua Barão de Bananal?" ou ainda "...em que dia da semana vai cair o dia 6 de maio?".
Mas na verdade eu não entendo de tudo. Não sei por exemplo onde fica a rua Barão de Bananal. E também não sei de muitas outras coisas. Meus amigos já sabem que não devem pedir minha opinião sobre futebol. Como não dirijo também não costumo ser consultado com questões de trânsito ou mecânica de automóveis, embora aí eu ache que existe um preconceito contra os pedestres do qual tratarei em outra ocasião. Não entendo de mecânica quântica nem de política, duas áreas em que o imponderável impera. Não entendo porque o Lula disse que ia mudar tudo e manteve tudo como estava. Não entendo porque as mulheres demoram 3 horas pra comprar uma "blusinha que combina com aquela saia verde", e na primeira oportunidade de usar a blusa, a experimentam com tudo menos com a saia verde. Mas essa última dúvida eu compartilho com cerca de 50% da humanidade.
Por não saber tantas coisas e para deixar de incomodar meus amigos, tomei a decisão de fazer um esforço descomunal para me conter e não dar mais minhas opiniões no momento em que me ocorrem. Ao invés disso vou escrevê-las nesta página. Isso é benéfico para todos, pois soluciona minha ansiedade por opinar sobre qualquer coisa e, caso alguém se interesse, poderá procurar aqui os pitacos guardados.
Tomei esta decisão há cerca de duas semanas quando criei este blog, mas como isso aqui ainda anda meio às moscas, não consegui ainda cumpri-la. Só ontem, por exemplo, invadi três conversas e não escrevi nada aqui. Mes eu prometo começar logo. A prática vai me levar à perfeição.

A propósito, em 2004, dia 6 de maio vai cair numa quinta-feira.

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